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José Centeio

O Sonho de Maria Adelaide

Maria Adelaide sonhava, à semelhança de todas as raparigas da aldeia, com o seu príncipe encantado que a levasse dali para fora. De preferência bem-apessoado e de fora, o que para ela significava da cidade. Não sendo as suas linhas das mais esbeltas, Maria Adelaide tinha contudo um trunfo que lhe dava alguma vantagem em relação às suas mais diretas concorrentes. Os seus olhos, de um verde electrizante, electrocutavam qualquer um dos rapazes que com ela se cruzasse. Aquele seu olhar sedutor era como uma espécie de linha imaginária que contornava qualquer coração e a ela o prendia. Maria Adelaide tinha consciência desse seu atributo e não se esquivava a dele fazer uso.

Os bailaricos da aldeia, sobretudo durante as épocas festivas, eram o momento ideal para se lançar a caça, já que eram muitos os forasteiros que iam em busca da sua princesa, fosse ela apenas por esses dias ou o título se prolongasse no tempo. E alguns até acabavam por encontrar a rainha da sua vida. Outros apenas pretendiam divertir-se "deixando pelo beiço" uma qualquer moça mais desprevenida. E foi num desses bailaricos, durante as festas da padroeira, que Maria Adelaide se prendeu de amores por José Esteves Alcazar, mais conhecido entre os pares frequentadores de recintos festivos por Zeca Convencido. Diziam os que com ele privavam durante as férias, companheiros de copos e de conquistas, que em cada aldeia deixava um coração suspirando. A Maria Adelaide o nome soava-lhe a uma nobreza misteriosa vinda de um qualquer lugar de Espanha. O seu ar esbelto, olhos cor do mar que ela não conhecia e uma lábia tecida de pequenos falsos segredos que só ele sabia como ir directo ao coração de uma rapariga, fizeram com que Maria Adelaide desprevenidamente por ele se encantasse. Constava que também ele ficara caídinho por ela. O que aconteceu ao certo ninguém sabe, apenas que aqueles três dias de festa marcaram irremediável e definitivamente o futuro e a vida daquela incauta rapariga. Sabe-se que namoraram até ao dia que o corpo ainda adolescente de Maria Adelaide começou a dar sinais visíveis de uma entrega incondicional. A verdade é que a partir daí nunca mais o Zeca Conquistador aparecera por aquelas bandas. E dele ela nada sabia. Nem nunca quis saber já que ele a convencera que todos os seus sonhos a ele pertenciam. 

Maria Adelaide não se deu conta, talvez porque os seus 17 anos de vida precocemente mutilados a impediram de perceber que os sonhos não se entregam, constroem-se e tenta-se vivê-los. E, num ápice, todos os sonhos de Maria Adelaide se desvaneceram. O seu mundo seria definitivamente do tamanho da aldeia, talvez até um pouco mais pequeno, tal era a mágoa que a impedia de sonhar mais além. E daí a alguns meses nasceu um bébé que, segundo a mãe, era a cara chapada do pai que nunca conhecera. Filho de pai incógnito, o que na gíria popular significava ser filho da "Maria Augusta solteira", tratamento ameno para a mulher que se "portava mal". Na escala condenatória da aldeia, ela nunca chegou a ser acusada de "galdéria", mas ela sentia que eram muitos os olhos, sobretudo homens, que a acusavam de "mulher fácil". Maria Adelaide tornou-se numa moira de trabalho, fosse ele qual fosse, já que todos os seus sonhos se concentravam agora naquele pequeno ser que jamais, por muito que tentasse, a faria esquecer os sonhos perdidos. A mãe, viúva, com quem ficaram a viver, lá ia ajudando como podia.

Ao longo da sua vida ainda passou pelos braços de alguns homens na tentativa de refazer a sua vida. Mas nada deu certo. Escrava já ela era de si própria. A mãe bem lhe recomendava: "Maria Adelaide, tens que encontrar homem que tome conta de ti". Mas ela não queria dono, apenas um companheiro que a respeitasse. E logo a seguir, sem qual maledicência, a condenação da mãe: "Olha que qualquer um que apareça é uma bênção". Isso doía-lhe, atingia-lhe o fundo da alma. Que triste sina a sua! Após a morte da mãe, Maria Adelaide envelheceu precocemente, tal como precocemente se havia tornado mulher. O filho, a quem dera o nome de João Miguel, estudou e partiu para Lisboa, para a cidade que ela nunca pisara. As visitas à mãe tornaram-se cada vez mais raras, talvez porque também ele tinha outros sonhos que não cabiam no espaço da aldeia. Sentia-se aprisionado por um passado que nunca compreendera, mas que se revelava nas piadas dos colegas de escola e no sofrimento da mãe. A mãe, que tanto lhe dera, não o ensinara a suportar o peso de um passado que, sendo também o seu, não lhe pertencia. Maria Adelaide remeteu-se a um silêncio tão ou mais profundo que a sua solidão. Uma vez por outra lá lhe ouviam um murmúrio que continha todas as suas mágoas e sofrimento: "Ingrato".